quarta-feira, 24 de maio de 2017

INÚTIL REPINTAR PAREDES E SE ESQUECER DOS ALICERCES


Nenhuma reforma pode colocar em risco os fundamentos da estrutura que se quer melhorar. O mofo das paredes, as goteiras do telhado, as pragas no jardim quase nunca tem a ver com os alicerces de uma casa. Não se arrancam pedras da base para mudar as cores da fachada. Não se cortam raízes para fortalecer a árvore quando chego o tempo do estio.
Contudo, na preservação dos alicerces é preciso cuidar para distinguir o que é fundamental e o que foi acrescentado segundo os interesses e as conveniências das pessoas e dos tempos.
No caso das inúmeras mudanças pelas quais vêm passando as várias respostas dadas ao sentimento religioso da Humanidade, necessário, importante e urgente se verificar esse critério.
Há vários anos, conversando com Carlos Mesters, o biblista e profeta carmelita, num evento em João Pessoa(PB), ouvi dele uma lição inesquecível. Eu lhe dizia que devemos ter cuidado para “não jogar fora a criança com a água suja da bacia”. Ele me garantiu que era muito mais perigoso “jogar fora a criança e ficar com a água suja na bacia.” Pois todos, em alguns momentos, fazemos isso. Na tentativa imediatista de modernização e de simplificação das estruturas, destruímos os alicerces, e tentamos nos abrigar sob paredes e tetos fragilizados.
E o pior quando ficamos com a água suja dos condicionamentos históricos e culturais e jogamos fora a criança que pretendíamos limpar. E parece que isto é o que temos visto e sentido nestes tempos pós conciliares.  A janelas que seriam abertas para entrada de novos ares, como desejada no século passado, viraram portas escancaradas para os modismos, as insignificantes “renovações” que eram apenas para facilitar o conforto e laxismo de muitos.   
Então, ao lado de um moralismo medieval, sem espaço para a misericórdia e o perdão, convivem modernidades que descaracterizam as origens do cristianismo. Uma religião nascida dos pobres e em função da libertação destes, virou uma religião de castas, de hierárquicos governos e burocráticas decisões.
A liturgia, ponto máximo da vivência religiosa para todas as tradições, foi modernizada ao ponto que quase perder a característica catequética e sacramental. A título de facilitação, as rubricas do missal engessam a criatividade e proíbem a espontaneidade. Participar da Eucaristia é um eufemismo deslavado o ainda arcaico costume de “assistir missa”.
O oportunismo mercadológico que incentiva a criação de novos hinos impede que a música sacra cumpra seu mais estrito dever: enlevar a alma. São cantos novos, poucos com a beleza que seu nobre destino requer. Não há verdadeiro diálogo entre altar e assembleia. Nem existe o necessário silêncio para a contemplação da Verdade celebrada.
Ainda se percebe um triunfalismo teatral nos altares. Quando não um arremedo de espetáculo onde celebridades vendem uma mensagem que não praticam nem observam. Se no mundo é o tempo do provisório e imagético, nas igrejas proliferam os signos de uma monárquica cerimônia. Cultos e celebrações que nada têm a ver com a ceia pascal comida pelo Cristo e seus amigos, sentados provavelmente no chão sobre almofadas simples e servida em pratos e copos rústicos.
Mas, o Espírito Santo de Deus, anunciado por Jesus de Nazaré perfura os disfarces, ilumina os recantos tenebrosos e revela a vontade do Pai acontecendo à revelia da Cúria. Entre os pobres Jesus mostra caminhos novos. E apenas um homem “do fim do mundo”, originário de um país que teima em se livrar as mazelas de anos de uma das mais cruéis ditaduras do Ocidente podia entender esse recado.
Ao abrir mão da pompa do cargo, simbolicamente recusando o uso das  ridículas vestes cravejadas de fios de outro e pedrarias, que lembram mais a roupa dos sumos sacerdotes que condenaram Jesus, Francisco deu um recado que nem todos ainda entenderam.
A Igreja de Bergoglio está reforçando seus alicerces e não apenas repintando paredes ou redecorando altares. Será que vamos demorar a entender? Quando é que nós, também da periferia do Ocidente capitalista vamos entender que o reforço do alicerce é a observância sem firulas do Evangelho? A criança da bacia é o Crucificado, suas obras, seus gestos e suas palavras. E mais nada!
O resto, as picuinhas de uma burocracia e dos usos anacrônicos que só e atrasam e atrapalham a hierofania com a qual sonhamos. Será que compreenderemos isto em tempo, antes que seja tarde, e que o Espírito de Vida resolva nos “vomitar da sua boca” como avisou à igreja de Laodicéia? (Ap 3,15)



Ton Alves é jornalista, leigo católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística – CASULO DE LUZ


MÍSTICA - Ou, a íntima experiência do Amor de Deus


No seu magnífico poema “Noche oscura del alma”, o místico Doutor da Igreja Juan de la Cruz fala da alma que, premida pelo silêncio do seu amado, sai, em meio da noite tenebrosa, tendo como luz para guiar seus passos apenas o fogo de amor que queimava em seu coração. Considerado uma das grandes criações literárias da humanidade, o poema recebeu posteriormente um extenso comentário do próprio autor.
Ao discorrer sobre cada estrofe do seu canto, Juan revela que “a noite escura da alma” não é apenas um fenômeno esporádico que se abate sobre as vidas de alguns religiosos. É, na verdade, o ardente anseio de toda alma humana pelo seu criador.

E com essa consciência amplificada, o místico vive em meio ao mundo sem ser do mundo. Não se amolda ao mundo, mas, antes transforma o mundo com sua mente agora transformada.(Rom 12,2)

Esse desconforto espiritual, onde nossa sede de amor só encontra o silêncio de Deus é uma experiência contínua de toda a humanidade, desde que “fomos expulsos do Paraíso”, Naquele momento em que o ser humano rompeu sua unidade com o Todo e com tudo, e ficou só e fragilizado. Como é impossível encontrar o Amado nas coisas sensíveis que rodeiam nossa alma, nos sentimos num deserto de desolação, secura e dor.

Por isso, a experiência mística, o sentir Deus não só perto, mas “dentro do coração”, se torna a mais dramática e universal procura de todas as almas humanas. Este movimento em busca do íntimo contado com o Absoluto, acontecimento natural dentro de cada um de nós, nos revela, possibilita e confirma nossa percepção, muitas vezes oculta, de fazer parte de algo maior do que apenas a realidade física.

Há quem considere essa busca e os possíveis encontros algo totalmente esotérico, reservado a privilegiados. Há quem imagine a mística apenas como a procura de respostas metafísicas. Contudo, essa prática pode nos levar a usufruir de formas distintas, inclusive amorosas e poéticas. Sendo a poesia a mais concreta forma de percepção e expressão do sentimento místico.

Pois a mística, a busca por uma resposta sobre os nossos propósitos de vida pessoais e coletivos, do como podemos viver melhor e mais integradamente com tudo o que nos cerca, resulta na ampliação da nossa consciência. Não apenas pelo acesso a planos transcendentais da existência, mas, principalmente, pelo clareamento da visão que nos possibilita enxergar com Verdade, Sabedoria e Amor a realidade do imanente que nos cerca.

Uma experiência mística para ser existencial e profunda não precisa ser, necessariamente, avassaladora e apoteótica. Aliás, muitos dos demorados êxtases catatônicos e ruidosos demonstram exatamente o contrário.

O arrebatamento de uma contemplação profunda é, por isso mesmo, íntimo, silencioso e calmo. A Glória Divina do Absoluto não está no “vento fortíssimo que separa os montes e esmigalha as rochas... nem no terremoto ou no fogo”, mas sim “no murmúrio de uma brisa suave.” (1 Reis 19,11-12).

Isto foi atestado pelo próprio Juan de La Cruz, ao comentar seus tormentos no cárcere da sua ordem religiosa em Toledo. “As visões e apreensões dos sentidos não têm proporção alguma com Deus: não podem servir de meio para a união com ele”, garantiu o místico doutor.

Sua coirmã, fundadora das Carmelitas Descalças, Teresa de Jesus, ensinava a possibilidade e a necessidade dessa vivência “até entre as panelas e os potes da cozinha”. Para a Santa de Ávila, a experiência de Deus era muito mais uma relação de amizade, de namoro, que de uma submissão servil. Para ela, essa amizade iguala os amigos para fazer deles um só. E isto no diálogo, no bate papo amoroso entre pessoas que se gostam no silêncio do coração (Livro da Vida, 33 e 34)

E experimentar o Amado, que antes de ser buscado já nos buscou primeiro, muda para nós todo o modo de percepção do mundo e até mesmo da nossa existência, nossa maneira de ver e enfrentar a vida e de acolher os irmãos nos quais passamos a enxergar o rosto da Divindade Invisível.

A experiência mística não encera a sede de Deus na alma do ser humano de uma vez por todas. Ao contrário, alarga de tal forma o vazio interior que exige sempre o Infinito para lhe saciar. Agostinho de Hipona, outro doutor, e talvez o mais conhecido e citado dos os Pais da Igreja, conclui uma bela oração confessando a Deus esse fenômeno: “Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora ardo no desejo de tua paz.” (Conf. 10,38)

O místico que experimenta Deus no fundo do seu coração se lança no mundo de uma forma diferenciada, nunca mais nos mesmos moldes de antes. É agora portador de uma visão amplificada, de uma sensibilidade potencializada para perceber com sentidos novos a si mesmo, os outros e o Universo inteiro. Até sua concepção de Deus transborda dos conceitos para uma atingir uma verdade quase inefável.

Reconhece a si mesmo um ser transitório porém único, integrado a todo o Universo e pleno do amor poderoso que o criou. Preenchida pela Divindade, a pessoa se sente imersa, mergulhada no Absoluto.

Como Paulo explicou ao povo no Areópago de Atenas, Deus nos criou para que o busquemos, “às apalpadelas, como no escuro, e possamos encontrá-Lo, embora Ele não esteja longe de cada um de nós. ‘Pois n’Ele vivemos, nos movemos e existimos’” (Atos 17, 27,28).

Então, a mística não faz da pessoa um ser etéreo e sublime, indiferente ao destino dos seres humanos e do mundo. Mas alguém que se sente irremediavelmente irmanado a todos os seres, e parte integrante de todo o Universo. E a evolução rumo à plenitude de toda a Criação passa a ser, agora, seu maior objetivo.


Ton Alves é jornalista, leigo católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística - – CASULO DE LUZ


segunda-feira, 22 de maio de 2017

PRECISAMOS VOLTAR À TRADIÇÃO DE JESUS



Gosto de pensar que o balanço das ondas é um recado do mar aos rios, que percorreram imensas distâncias para entregarem ali suas águas, avisando que o oceano é o ponto de chegada, mas não é o fim. O movimento, a agitação, as mudanças constantes, conforme os lugares e os tempos são como o palpitar de um coração: sinais de vida.
Assim também nos vejo, os seres humanos e as sociedades, necessitados de sacolejos e sacudidelas para não achar que não precisamos mais caminhar porque atingimos o que parecia ser o objetivo final da nossa longa busca. “A estagnação é o começo da morte”, dizia um poeta. A dinâmica é o pulsar da vida.
Já no quarto século da nossa era, havia pensadores temendo o que poderia acontecer com “O Caminho” iniciado por Jesus com a consolidação do que se convencionou chamar “a Cristandade”. Como era do interesse de uma igreja, antes perseguida e obscura, que se tornara religião oficial do Império, com uma complicada e imensa hierarquia, o Cristo da fé e do dogma substituiu paulatinamente o Jesus histórico.
Nas imensas basílicas até nas menores igrejas, pinturas e estátuas de um rei poderoso, coroado de glória tomaram o lugar da figura do pastor terno e acolhedor. Ficou quase impossível lembrar que o Pantocrator que abençoava imperadores e cônsules era o mesmo filho de Maria, um humilde artesão de uma pequena aldeia que enfrentou o cínico Sinédrio e o cruel rei da Judéia.
O rebelde torturado e brutalmente morto na cruz pelas autoridade Romanas, a pedido dos Sumos Sacerdotes, tornou-se protetor do império e objeto de um riquíssimo culto cheio de pompa e circunstâncias. Nascia a Cristandade. Jesus de Nazaré ficou relegado a um segundo plano para ceder lugar ao Cristo, Filho Único de Deus. Rei dos Reis e não mais o pastor da ovelha ferida.
É mais fácil lidar com um Cristo diáfano, transparente aos nossos conceitos, do que aceitar um homem concreto, de carne, osso e poeira que afirmou que “quem quiser ser o maior que seja o menor e o que serve”. O Cristo pode ser aproximado do mito e dissolvido numa ideia maleável, que não incomoda e até nos conforta. Mas o Nazareno é concreto demais e viveu de forma tão radical e verdadeira e clara que é inflexível aos nossos interesses e nos desafia.
E assim, entramos na Idade Média, onde os simples e os pobres se sentindo indignos de tanto brilho recorriam às imagens, às passagens históricas da vida de Jesus, de sua família, principalmente sua mãe, e seus amigos. Criaram-se devoções populares vivenciadas nas aldeias, nas periferias dos burgos, nas casas dos simples.
Desenvolveu-se, ao lado da monumental, incompreensível e difícil Teologia Escolástica, privativa ao clero, monges, nobres e letrados, uma devoção popular que se valia dos santos para interceder junto ao agora distante Cristo, Rei do Universo. Enquanto não tiravam dos párocos, vigários e bispos, esse catolicismo dos simples era até estimulado pelos padres pobres da vilas e aldeias.
Ao longo do período medieval, tido por muitos como a Idade das Trevas, floresceu uma religiosidade popular onde o Crucificado sofrido e morto comovia e convertia muito mais que o Ressuscitado glorioso e coroado. Era o retorno à Tradição de Jesus, onde os ensinamentos e as orações eram ensinados e repetidos pelas casas. As festas do Natal e da Semana Santa, centrada na Sexta-Feira da Paixão, eram os pontos altos dessa religiosidade.
A reforma protestante insurge contra isso, e tenta restaurar a Tradição do Jesus histórico que havia cedido lugar ao Cristo da fé, ao qual havia sido adicionados um punhado de adereços teológicos e ideológicos. A principal arma desse projeto foi a tradução da Bíblia só publicada em Latim para as idiomas dos vários países. Purificada de muitos dos seus adornos imperiais, a Cristandade começou a mudar, ou seja, deixou de ser apenas privilégio de a reis, senhores e governantes para servir também à ideologia burguesa urbana.
Com a chegada do iluminismo materialista, a própria Cristandade, a religiões dos papas, reis, príncipes e governantes europeus sofreu um duro golpe. Contudo, ao invés de buscar nas próprias raízes, esquecidas nas areias da Palestina e nas montanhas da Ásia Menor, a Igreja quis através dos Concílios de Trento, Vaticano I, decretos, bulas e encíclicas reformar a sua face.
Foi como repintar a fachada de um prédio cujas estruturas estão abaladas até os fundamentos. Ou uma custosa intervenção cirúrgica para remover os sinais da idade e da doença de um corpo combalido pela velhice. Inútil! Nas colônias, o catolicismo popular e o protestantismo reformador que não encontrou espaço na Europa ganhou nova força. Mas acabaram  por repetir o mesmo erro anterior e recriaram uma cristandade da periferia.
O século XXI chega com a Cristandade em frangalhos. Composta de credos dos mais diferentes, como acontece com todas as grandes religiões que fogem do controle de uma autoridade central (“O Espírito sopra onde e quando quer”). As igrejas e seitas cristãs propõem tantos caminhos distintos para a santidade que muitos parecem contrários uns dos outros.
Só se salva pela unidade, ou pelo menos por um relacionamento sadio, nascido de um diálogo fraterno numa linguagem baseada na intuição original que as iguala e une, e não nos acidentes históricos e culturais que as distingue.  E a intuição original do cristianismo não é o Cristo teológico, mas sim na pessoa concreta de Jesus de Nazaré.
É Jesus com seus gestos, palavras, sua paixão e morte é quem revela o Cristo. Não há Cristo sem Jesus. E, a Jesus, por ser concreto e humano, não basta a verdade sabida, precisa-se da verdade vivida. Ciência é pouco, é preciso mais a experiência.
Pois Jesus sem o Cristo continua a ensinar com seu testemunho o amor de Deus que tudo criou que, por amor, se encarnou num judeu pobre e oprimido na periferia do maior império do Ocidente.
O Cristo é fruto de uma elaboração filosófica, a partir dos atos e ações de Deus na História humana, cujo maior sinal figura no rosto de Jesus. Mas Jesus é o resultado de uma longa evolução da Humanidade que, “no apogeu dos tempos” se concretizou em um homem concreto, histórica e geograficamente datada.
Então, para voltar a ser real e fortemente cristão, o cristianismo deve voltar a Jesus. Se recuperar sua missão de ser luz que ilumina e sal que preserva a Humanidade, o Cristianismo vai voltar a ser a continuidade do projeto de Jesus de Nazaré.
Não apenas contemplar Jesus, estudá-Lo, adorá-Lo e louvá-Lo. Mas, principalmente lhe ouvir, amar, seguir e imitar.  Só Jesus salva o cristianismo das próprias confusões que aqueles que não tinham ouvido para ouvir, nem olhos para ver, mas ambição e sede de poder suficientes para sobrepor à sua imagem próxima e humilde a arrogância de um senhor e rei distante e amedrontador.

Ton Alves é jornalista, leigo católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística - – CASULO DE LUZ

sábado, 20 de maio de 2017

AMOR, LOUCURA OU LIBERTAÇÃO?



Ao Reino de Deus importa mesmo é que a vida religiosa consagrada seja “fermento na massa”, (Lc. 13,21), que deve ser levedada para ser tornar pão para a vida. É preciso cuidado para que, ao contrário, esse fenômeno místico vital não se torne um item a mais na argamassa que enrijece as estruturas de morte.

Pois, quando não são flexíveis, como os ossos de um bebê, que sustentam, mas não impedem o crescimento, as estruturas paralisam. Sufocam as sementes (Mat 13,22), engessam a evolução e atrasam a chegada da plenitude para qual Deus criou todas as coisas.Para isto, estão sendo exigidos dos consagrados e das consagradas a fidelidade às suas origens e uma corajosa avaliação crítica do que significa esse projeto no mundo de hoje. Esta conclusão já havia sido feita por mim no artigo “A vida religiosa tem futuro?” publicado nas redes sociais e no blog Casulo de Luz em 15 de maio passado.
Agora, nossa pretensão é focar naquilo que constitui e dá identidade à vida religiosa, ouso apresentar uma visão pessoal minha sobre os Conselhos Evangélicos, os votos de pobreza, castidade e obediência.Estamos plenamente inseridos num mundo onde o bem estar fácil, o consumismo inebriante e a provisoriedade de tudo virou mais que moda. Virou, aparentemente, o único jeito de ser, estar, permanecer e ser feliz na face da Terra. O notável avanço das tecnologias da comunicação possibilita hoje um aumento substancial nos contatos junta a uma avassaladora superficialidade nas relações humanas.E, num instante histórico como este, como ficam, ou, como deveriam ficar os valores de uma vida religiosa voltada inteiramente para Deus? O que significa hoje um compromisso sagrado de viver em pobreza, castidade e obediência?Estas são as pergunta que afligem a todos nós que nos consagramos à vida religiosa, desejosos de seguir mais de perto a Jesus de Nazaré, no amor incondicional a Deus e no serviço abnegado ao próximo (Perfectae Caritatis, 2).Afinal, se atentarmos aos sinais dos tempos, viver essa consagração é ir contra a corrente, bater de frente com tudo que a Pós Modernidade propõe.Então, há um modo atualizado, modernamente eficiente e tradicionalmente correto, de viver os Conselhos Evangélicos (1Cor; 7; Fil. 2; 2Cor. 8)? Como ser eficaz nessa vivência para que a vida consagrada não perca totalmente sua relevância e com isso não tenha mais nenhuma serventia para “iluminar a vida e oferecer a salvação para a Humanidade” (Gaudium et Spes 3)?Baseados nos ensinamento do apóstolo Paulo, de que “os que usam deste mundo, usem-no como se dele não usassem, pois a aparência deste mundo passa”, na sua primeira carta aos Coríntios (1Cor 7,31) muitos homens e muitas mulheres viram na vida religiosa uma maneira de abandonar e fugir do mundo.
Dessa forma, impediram que o bem que uma atitude profética de tão envergadura não passasse de um comodismo egocêntrico e doentio. A pobreza passa ser um jeito de se esquivar da luta pela sobrevivência e o exercício da solidariedade. A castidade, o escamoteio para uma sexualidade muitas das vezes dolorosamente constrangedora. E a obediência uma forma de deixar para outra pessoa o discernimento e a responsabilidade das decisões.Assim, os conselhos evangélicos, que foram por muitos séculos vistos apenas como um triste e medonho sacrifício, e vão continuar sendo vistos como uma esquisitice de pessoas alopradas. “A infelicidade neste mundo pavimenta a estrada para o Paraíso”, escreveu um asceta do Século XII. Contudo, essa afirmativa se desfaz diante da fulgurante luz da Misericórdia Divina revelada por Jesus de Nazaré.Ser pobre como o Cristo não é fechar os olhos para as injustiças sócias econômicas desse mundo globalizado. É desapegar dos bens e usar todas as riquezas da criação de maneira livre e ponderada. E não se deixar ser usado, dominado e guiado por elas. A pobreza evangélica liberta não porque faz sofrer para purgar os pecados nossos e do mundo, mas porque a liberdade do “não ter” permite o “ser”. E subtrai os corações da escravidão da cobiça e do desejo insaciável, da avareza da posse.Ser casto não significa ser castrado ou castrada. A castidade cristã é a purificação do egoísmo que coisifica o outro ou a outra. É levar a sexualidade ao nível do sagrado, fonte de encontro, alegria e serviço. Se não compreendida, assumida e aceita, a sexualidade se transforma em ferrão do demônio que fere e condena. Ser casto como o Cristo é ver nas outras pessoas o rosto de Deus, e, portanto, jamais, apenas um instrumento de luxúria e prazer.Ser obediente é diferente de ser servil, alienado (a), a uma autoridade incompreendida, mas aceita e suportada como uma algema. A base da obediência evangélica vem da aceitação alegre, voluntária e da sintonia amorosa às necessidades que não são próprias, mas são legítimas. Obedecer é dialogar, oferecer um sim à demanda de outro em vistas de um bem maior. Obediência não deve ser cega, mas consciente, clara, iluminada pelo amor fraterno.Vistos desta forma, e só desta poderemos vê-los pela lente do Evangelho e da Tradição, os Conselhos Evangélicos são preceitos acessíveis a todos os homens e mulheres, em todos os estados de vida. Seja no saudável celibato voluntário, na solidão de um cenóbio ou inserido no mundo, ou até numa prolífica vida matrimonial.Pois a observância dos Conselhos Evangélicos não é um privilégio concedido apenas a determinadas pessoas. É um preceito para todos os seres humanos sagrados pelo batismo, que deve e pode ser vivido em múltiplas intensidades.Quem quiser observar e vive-los mais profética e radicalmente, deve ter como base e estímulo uma profunda vida oração e um austero recolhimento. O que não significa uma fuga mundi ou um a submissão a uma patológica e masoquista negação do Absoluto de Deus que reside em todos os corações.


Ton Alves -jornalista, católico universalista é o fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística - – CASULO DE LUZ


quarta-feira, 17 de maio de 2017

A VIDA RELIGIOSA TEM FUTURO?

Sou consagrado desde 1984.
E nesse tempo sempre me perguntei se a vida religiosa consagrada teria futuro num mundo em mutação. Pois, mais que “coluna vertebral”, como diz Francisco, o Bispo de Roma, considero a vida consagrada as veias e artérias onde circula o “sangue” vivificante do qual o Espírito, “que faz novas todas as coisas”, se vale para manter e renovar as religiões.
Pois, o Espírito do Cristo, que é Cósmico, dom e senhor do Universo (e não propriedade da tradição cristã), é ruah (רוּח - vento) que impulsiona a evolução de tudo rumo ao Todo. Logo, tudo o que estaciona e teima em permanecer o mesmo, se acomoda e não evolui, e só serve ao Anticristo.
Nascidas do eremitismo e do monaquismo, todas as formas de vida consagrada são respostas aos sinais dos tempos. Surgiram de mulheres e homens que “ouviram o que o Espírito dizia às Igrejas”, independente da religião de que fazem parte. Com o tempo, a gordura do comodismo ensurdeceu estes grupos. Tornaram pedras que não servem para o alicerce, só atrapalham a caminhada.
Hoje, parece que a brisa do Espírito que lhes deu vida tornou-se ventos tempestuosos que vão destroem as velhas e ineficazes estruturas. Há até quem diga que o século XXI verá o fim da vida consagrada, nas formas que hoje as conhecemos.
Imitando Karl Marx, o pensador considerado maldito pelos conservadores, digo que, até agora, os consagrados discerniram, meditaram e até sofreram a realidade do mundo. Mas o que importa mesmo é transforma-lo, torná-lo novo, de novo, como no Gênesis.
Assim como as religiões, as sociedades de vida consagrada e até mesmo o eremitismo têm que “se readaptar para não morrer”. Mosteiros e conventos quase vazios indicam que essa proposta de salvação e santificação individual é anacrônica, ou seja, não tem nenhuma utilidade nem atrativo num momento de crise global como o que vivemos.
A Divindade não apenas contém, mas também atrai e chama todos os seres para o centro dela mesma. Mas o convite é universal. Na festa escatológica da plenitude só se entra em conjunto. A Jerusalém Celeste, como já disse Agostinho, não é um trono para o indivíduo, é uma cidade para que “o Todo seja tudo em todos”.
Mas essa readaptação não será fácil, reconheçamos. É um salto das comodidades do “Egito” para as duras incertezas do deserto. Mas só assim se chega a Canaã.
Como um parto, é doloroso deixar a comodidade de um útero em forma de instituições sagradas, de altos muros das regras sexistas castradoras, e até de vestimentas que distinguem, separam e defendem. Mas é esse passo árduo, dilacerante que está sendo pedido pelos sinais dos tempos.
Ou teremos a coragem de nos expor aos perigos da insegurança material sem o disfarce de falsas renúncias, de estarmos sujeitos às paixões e ao imprevisível do convívio humano, ficamos “nus diante do Nu”, ou não temos nada o que fazer nem a dizer a uma Humanidade que sofre e geme as dores do renascimento.

SINAIS DOS TEMPOS

Há quem diga que esta geração agoniada e privilegiada, que vive neste início de século, seja a gestante e parteira do novo passo evolutivo do espírito humano. Uma olhadela rápida e atenta aos noticiários nos revela que, apesar de o ser humano haver alcançado um inacreditável desenvolvimento científico e tecnológico, estamos, dolorosa e irremediavelmente, no mais escuro da noite da civilização.
O teólogo Leonardo Boff diz que os tempos de hoje são “uma época, particularmente, anêmica de Espírito.” Pois, a banalização da vida em todos os níveis aponta que estamos sob o completo domínio de um relativismo materialista que faz a máquina mais importante que a pessoa, a aparência exterior mais importante que a essência interior.
E nem adianta nos enganar com a “explosão de espiritualidade” que parece estar balançando as velhas e confusas estruturas religiosas. Pois, o que há mesmo é uma avalanche de “espetáculos”, da mais crua exploração mercantilista da boa fé e da esperança humanas.
Esse “um novo despertar do sagrado”, como dizia Paul Tillich (1886-1965), muitas das vezes é apenas o velho instinto de oportunismo transformando em dinheiro e poder a sede de transcendência comum a todos os seres humanos. E, nenhuma das tradições religiosas institucionalizadas do planeta escapa desse câncer tenebroso.
No alto dessas estruturas só se cuida da auto manutenção do status que conquistaram através da mentira e do engodo. Como resposta às angustias existenciais do povo oferecem a ilusão de uma possível felicidade adquirida a peso de ouro, suor, sangue e liberdade dos mais simples.
Os meios de comunicação desrespeitam o básico dever de formar e informar e facilitam aos charlatães o poder de burlar as consciências. Já não há ensinamento de nenhum mestre, esforço de qualquer profeta ou sangue de algum mártir da Verdade que não tenha se tornado mercadoria.
Todas as doutrinas, nascidas do contato de mentes iluminadas com a Divindade, viram possibilidades de negócios para “seguidores” inescrupulosos. Como “sementes que caíram entre espinhos que a sufocaram, e que o verme as comeu como ensinou Jesus, o Vivente no dito 9, do Evangelho de Tomé.
É difícil uma esquina sem um templo. Assim como é impossível uma quadra sem um botequim. Quanto mais uma comunidade é carente de bens, saúde e conhecimento, maior é o índice de entidades religiosas presentes por lá. E, na maioria, fruto da sede de sentido do ser humano explorada por uma enxurrada de aproveitadores.
As pessoas que se julgam espertas, inteligentes demais para “caírem na lábia” de qualquer guru, santo, missionário, médium ou pastor, se deixam hipnotizar pelo discurso arrogante e dogmático do ateísmo cientificista. E passam a crer no “paraíso tecnológico” prometido pela Ciência prostituída pelo demônio do capitalismo. 
VIVER PARA E DO ESPÍRITO
 Nesse contexto, onde a relatividade de todas as instituições substitui os verdadeiros valores humanos, como ficam as sociedades e grupos de pessoas de vida religiosa consagrada? Estatísticas demonstram senão uma falência iminente, pelo menos um enfraquecimento quase mortal dessas organizações. E não apenas no catolicismo, ou no cristianismo inteiro. Monges budistas, sanyasis e grupos de renunciantes das religiões orientais experimentam o mesmo declínio.
Afinal, como as mulheres e os homens consagrados do Ocidente, essas modalidades de vida religiosas orientais também vivem em função da espiritualidade. E numa época “carente de Espírito”, definham e morrem. A não ser que o fogo abrasador da fé e da esperança resgate.
Essa situação, no caso da vida religiosa cristã, vem acentuando-se há bastante tempo. Já na época do Concílio Vaticano I ouviam-se queixas, lamentos e sugestões. Contudo, com os movimentos de independência das colônias da África e América, houve um quase renascimento das congregações.
Após a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, na primeira metade do Século XX, a situação pareceu estar definitivamente superada. Conforto que não durou muito. Menos de duas décadas depois um vendaval varreu mosteiros, trapas e conventos esvaziando celas, coros e claustros.
Há muitos que culpam o “aggiornamento” proposto pelo papa Ângelo Roncalli (S. João XXIII), concretizado no Concílio Vaticano II, que aconteceu de outubro de 1962 a dezembro de 1965, pela catastrófica epidemia de abandono que experimentaram as ordens e congregações.
Mas, há quem garante que, muito pelo contrário, o esvaziamento foi até mesmo atenuado pelo Vaticano II, e que o Decreto Perfectae Caritatis, publicado quase no seu final, o concílio renovou a vida religiosa consagrada e permitiu que continuasse subexistindo nos eufóricos e últimos anos da Modernidade.
Ao sugerirem o retorno dos religiosos consagrados às fontes da vida cristã, os dois mil padres conciliares determinaram que “os religiosos, portanto, fiéis à profissão, deixando tudo por amor de Cristo, sigam-no como única coisa necessária, ouvindo a Sua palavra, solícitos das coisas que são d'Ele”(PC).
Para isto, o decreto propunha duas bases, aparentemente antagônicas, a partir das quais a vida religiosa deveria ser reformulada: a adaptação às novas condições dos tempos e o retorno sincero às suas antigas raízes, atentos ao “espírito e desejo de seus fundadores”.
Adaptar-se ao presente parecia fácil. Mas, da forma como foi feita na maioria dos institutos e congregações acabou se tornando a perda quase total da identidade que os distinguia.
E a identidade sempre foi para a vida religiosa católica a única justificativa para a proliferação de milhares e congregações, ordens, institutos, fraternidades e companhias. Quem decidia ir para um convento era atraído mais pelo carisma específico daquele grupo, geralmente dado pelo fundador ou fundadora do que pelo simples e fundamental seguimento do Cristo, pobre, casto e obediente até a morte, como deveria ser.
O primeiro e principal ato “reformulador” foi a dispensa do uso das vestimentas específicas. Os hábitos, às vezes ridículos, outras vezes inexplicáveis, funcionavam como verdadeiros escudos, que defendiam os consagrados e as consagradas dos perigos do mundo. Foram substituídas por uma roupa híbrida, na maioria dos casos. Algumas congregações abandonaram total e definitivamente as custosas indumentárias.
O preceito de que se devia “pesar seriamente que as melhores adaptações às necessidades do nosso tempo não sortirão efeito, se não forem animadas da renovação espiritual, que sempre, mesmo na promoção das obras exteriores, deve ter a parte principal” (PC), proposto pelo Concílio, foi entendido apenas como uma licença para a “modernização” externa de casas, costumes e pessoas.
Aos fiéis leigos, essa renovação significou apenas uma troca de roupa, e não um “retorno às raízes da vida cristã e ao espírito dos fundadores” (PC). Se antes os mais especializados sabiam distinguir um agostiniano de um franciscano e este de um dominicano, agora todos eram homens comuns e mulheres como todas as outras. 
Sem a defesa de uma roupa especial, vestidos como a maioria das pessoas, os religiosos consagrados, homens e mulheres, também se sentiram livres para viver o mais secularmente possível. Resultado: uma debandada geral e ilimitada.
E a situação foi só piorando. Na Europa centenas de conventos e mosteiros, verdadeiros castelos medievais ricamente decorados ao longo de séculos viraram hotéis e museus. Não havia mais as centenas de braços que poderiam sustentar e manter uma estrutura palaciana.
Uns poucos viraram depósitos de monges, monjas, frades e freiras idosos, com uma manutenção caríssima. Em algumas regiões, como no Terceiro Mundo, ainda podia-se ter uma melhor resposta em termos numéricos. Mas isto aconteceu à custa de concessões no processo de discernimento e formação.
Nem a ousadia da vida em “casas de inserção”, traduzida pela residência de pequenos grupos no meio das comunidades populares dos bairros periféricos funcionou plenamente. Esses novos conventos, agora pequenas casas comuns e mais discretas passaram a receber mulheres e homens atraídos à vida religiosa pela falta de alternativas de vida, ou acossados pela pobreza.
E, como suas motivações não era o desejo sincero da entrega ao Espírito, mas um ajeitamento sócio econômico, acabaram por desvirtuar e finalmente descaracterizar o que havia de sublime na consagração.
 UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL?
Porém, “um problema sempre traz em si a sua solução”, anunciavam os sofistas gregos antes de Sócrates e cinco séculos antes de Cristo. O brilho de um raio de luz sempre é ressaltado pela escuridão que o envolve.
Também disseram os mestres e mestras iluminados pelo Espírito da Suprema Unidade: “o momento mais escuro da noite é que anuncia o início do amanhecer.” As dores e os gemidos podem ser os sinais de um renascimento iminente.
E é isso que a Esperança Cristã leva a crer. Como “no princípio” (בראשית  bereshit – Gênesis)  do caos é gerado o cosmos, a escuridão possibilita e pede o “Fiat lux”, No meio da terra revolvida, do barro é que reside a mais brilhante joia, acessível apenas aos atentos.
Então há uma saída? Há um remédio para as dores e a agonia  da vida religiosa? Além do otimismo de estudiosos, há as pessoas que acreditam, como eu creio, que o sentimento místico é a única chave que abre as portas do cotidiano para nos deixar entrever a Suprema Realidade.
Resposta mais íntima ao desejo de transcendência do ser humano, a mística alimenta a fé e clareia a esperança. Raiz e flor de todos os sentimentos religiosos que adornam a vida humana, a mística é como a lente que aproxima de nós a Verdade que nenhum sentido externo pode enxergar.
Os místicos de todos os lugares, culturas e tradições confiam e esperam firmemente que os sinais dos tempos que trazem a noite trazem também a madrugada. Os tempos que apavoram são também kairós (καιρός - momento oportuno) para a alegria do renascer. Os sinais dos tempos tenebrosos indicam um possível amanhecer.
Mas como identificar esses sinais? Como levantar os olhos do chão lamacento em que pisamos para olhar o objetivo final dessa caminhada?
As sociedades de vida religiosa consagrada, como as religiões e igrejas que as amparam e que delas bebem, só têm como arma e defesa o que lhes é específico. Não é possível agregar uma blindagem além do espírito que as animam.
No caso cristão, a vida religiosa só tem como base e referência o Reino de Deus, anunciado no Evangelho de Cristo. Não podem, e muito menos devem, se apoiar em outra base que não seja “a pedra que os pedreiros rejeitaram e que se tornou a pedra angular” (Sl.,117-118).
E apoiados nessa pedra, que é o Cristo Jesus, o que podemos enxergar? Nada mais que sua gesta e seu evento pascal. Não há Jesus sem cruz. Mas não há cruz sem ressurreição. ´”Se o grão de trigo não morrer...” (Jo 12,24).
Enfrentar essa morte que leva à ressurreição exige que as organizações e sociedades de vida consagradas tenham a coragem de, num primeiro momento, voltar para si próprias. E, numa autocrítica sincera e sem fraqueza descobrirem as feridas que as estão levando à morte.
Depois, precisam de mais coragem ainda para decepar seus membros e órgãos gangrenados (Mat 5, 29-30).  Só depois poderão se valer dos óculos que seus fundadores e fundadoras usaram para enxergar o que de específico a vida e as palavras do Nazareno propõem para cada uma.
Ainda é preciso que tenham a criatividade audaciosa e a valentia profética para discernir o como, o onde, e o para que desse renascimento. Afinal, todos, homens e mulheres cristãos não se reconhecem a si mesmos a não ser diante, com e para o outro ou outra. Só o espelho do próximo revela o rosto de Cristo.
Respondendo a pergunta que abriu o texto, só podemos esperar e buscar uma forma de sobrevivência. Pois, se a árvore que tem  folhas e galhos, até parte do tronco decepados pode tornar a brotar se preservada a saúde das suas raízes (Isaías 11,1), do Cristo, raiz de todo projeto de santidade, pode ressurgir uma vida religiosa renovada cristã, atualizada e mais bela.
Deus nos permita essa ressurreição!


Ton Alves é jornalista, leigo cristão católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Fraternidade Holomística Transreligiosa – CASULO DE LUZ


segunda-feira, 9 de maio de 2016

O PAI NOSSO EM VERSÃO CÓSMICA

Esta é uma oração composta por Ton Alves, no início do ano 2000. Segue as petições do Pai Nosso ensinado por Jesus de Nazaré aos seus discípulos. Ampliado segundo as convicções universalistas do coordenador de Casulo de Luz.

SUBLIME INVOCAÇÃO - Vejam o vídeo"



Escrevi esse texto em 2009, sem imaginar que, um dia, a voz e o talento de Agueda Martins Andrade lhe daria tanto esplendor. É, agora, a expressão do sentia realmente no coração e que as palavras não conseguiram definir. Gratidão eterna a minha amiga e ao Universo que nos permitem tanta beleza. Visitem e se inscrevam em ALENTO PARA ALMA e desfrutem de outras jóias que brilham por lá.