quarta-feira, 17 de maio de 2017

A VIDA RELIGIOSA TEM FUTURO?

Sou consagrado desde 1984.
E nesse tempo sempre me perguntei se a vida religiosa consagrada teria futuro num mundo em mutação. Pois, mais que “coluna vertebral”, como diz Francisco, o Bispo de Roma, considero a vida consagrada as veias e artérias onde circula o “sangue” vivificante do qual o Espírito, “que faz novas todas as coisas”, se vale para manter e renovar as religiões.
Pois, o Espírito do Cristo, que é Cósmico, dom e senhor do Universo (e não propriedade da tradição cristã), é ruah (רוּח - vento) que impulsiona a evolução de tudo rumo ao Todo. Logo, tudo o que estaciona e teima em permanecer o mesmo, se acomoda e não evolui, e só serve ao Anticristo.
Nascidas do eremitismo e do monaquismo, todas as formas de vida consagrada são respostas aos sinais dos tempos. Surgiram de mulheres e homens que “ouviram o que o Espírito dizia às Igrejas”, independente da religião de que fazem parte. Com o tempo, a gordura do comodismo ensurdeceu estes grupos. Tornaram pedras que não servem para o alicerce, só atrapalham a caminhada.
Hoje, parece que a brisa do Espírito que lhes deu vida tornou-se ventos tempestuosos que vão destroem as velhas e ineficazes estruturas. Há até quem diga que o século XXI verá o fim da vida consagrada, nas formas que hoje as conhecemos.
Imitando Karl Marx, o pensador considerado maldito pelos conservadores, digo que, até agora, os consagrados discerniram, meditaram e até sofreram a realidade do mundo. Mas o que importa mesmo é transforma-lo, torná-lo novo, de novo, como no Gênesis.
Assim como as religiões, as sociedades de vida consagrada e até mesmo o eremitismo têm que “se readaptar para não morrer”. Mosteiros e conventos quase vazios indicam que essa proposta de salvação e santificação individual é anacrônica, ou seja, não tem nenhuma utilidade nem atrativo num momento de crise global como o que vivemos.
A Divindade não apenas contém, mas também atrai e chama todos os seres para o centro dela mesma. Mas o convite é universal. Na festa escatológica da plenitude só se entra em conjunto. A Jerusalém Celeste, como já disse Agostinho, não é um trono para o indivíduo, é uma cidade para que “o Todo seja tudo em todos”.
Mas essa readaptação não será fácil, reconheçamos. É um salto das comodidades do “Egito” para as duras incertezas do deserto. Mas só assim se chega a Canaã.
Como um parto, é doloroso deixar a comodidade de um útero em forma de instituições sagradas, de altos muros das regras sexistas castradoras, e até de vestimentas que distinguem, separam e defendem. Mas é esse passo árduo, dilacerante que está sendo pedido pelos sinais dos tempos.
Ou teremos a coragem de nos expor aos perigos da insegurança material sem o disfarce de falsas renúncias, de estarmos sujeitos às paixões e ao imprevisível do convívio humano, ficamos “nus diante do Nu”, ou não temos nada o que fazer nem a dizer a uma Humanidade que sofre e geme as dores do renascimento.

SINAIS DOS TEMPOS

Há quem diga que esta geração agoniada e privilegiada, que vive neste início de século, seja a gestante e parteira do novo passo evolutivo do espírito humano. Uma olhadela rápida e atenta aos noticiários nos revela que, apesar de o ser humano haver alcançado um inacreditável desenvolvimento científico e tecnológico, estamos, dolorosa e irremediavelmente, no mais escuro da noite da civilização.
O teólogo Leonardo Boff diz que os tempos de hoje são “uma época, particularmente, anêmica de Espírito.” Pois, a banalização da vida em todos os níveis aponta que estamos sob o completo domínio de um relativismo materialista que faz a máquina mais importante que a pessoa, a aparência exterior mais importante que a essência interior.
E nem adianta nos enganar com a “explosão de espiritualidade” que parece estar balançando as velhas e confusas estruturas religiosas. Pois, o que há mesmo é uma avalanche de “espetáculos”, da mais crua exploração mercantilista da boa fé e da esperança humanas.
Esse “um novo despertar do sagrado”, como dizia Paul Tillich (1886-1965), muitas das vezes é apenas o velho instinto de oportunismo transformando em dinheiro e poder a sede de transcendência comum a todos os seres humanos. E, nenhuma das tradições religiosas institucionalizadas do planeta escapa desse câncer tenebroso.
No alto dessas estruturas só se cuida da auto manutenção do status que conquistaram através da mentira e do engodo. Como resposta às angustias existenciais do povo oferecem a ilusão de uma possível felicidade adquirida a peso de ouro, suor, sangue e liberdade dos mais simples.
Os meios de comunicação desrespeitam o básico dever de formar e informar e facilitam aos charlatães o poder de burlar as consciências. Já não há ensinamento de nenhum mestre, esforço de qualquer profeta ou sangue de algum mártir da Verdade que não tenha se tornado mercadoria.
Todas as doutrinas, nascidas do contato de mentes iluminadas com a Divindade, viram possibilidades de negócios para “seguidores” inescrupulosos. Como “sementes que caíram entre espinhos que a sufocaram, e que o verme as comeu como ensinou Jesus, o Vivente no dito 9, do Evangelho de Tomé.
É difícil uma esquina sem um templo. Assim como é impossível uma quadra sem um botequim. Quanto mais uma comunidade é carente de bens, saúde e conhecimento, maior é o índice de entidades religiosas presentes por lá. E, na maioria, fruto da sede de sentido do ser humano explorada por uma enxurrada de aproveitadores.
As pessoas que se julgam espertas, inteligentes demais para “caírem na lábia” de qualquer guru, santo, missionário, médium ou pastor, se deixam hipnotizar pelo discurso arrogante e dogmático do ateísmo cientificista. E passam a crer no “paraíso tecnológico” prometido pela Ciência prostituída pelo demônio do capitalismo. 
VIVER PARA E DO ESPÍRITO
 Nesse contexto, onde a relatividade de todas as instituições substitui os verdadeiros valores humanos, como ficam as sociedades e grupos de pessoas de vida religiosa consagrada? Estatísticas demonstram senão uma falência iminente, pelo menos um enfraquecimento quase mortal dessas organizações. E não apenas no catolicismo, ou no cristianismo inteiro. Monges budistas, sanyasis e grupos de renunciantes das religiões orientais experimentam o mesmo declínio.
Afinal, como as mulheres e os homens consagrados do Ocidente, essas modalidades de vida religiosas orientais também vivem em função da espiritualidade. E numa época “carente de Espírito”, definham e morrem. A não ser que o fogo abrasador da fé e da esperança resgate.
Essa situação, no caso da vida religiosa cristã, vem acentuando-se há bastante tempo. Já na época do Concílio Vaticano I ouviam-se queixas, lamentos e sugestões. Contudo, com os movimentos de independência das colônias da África e América, houve um quase renascimento das congregações.
Após a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, na primeira metade do Século XX, a situação pareceu estar definitivamente superada. Conforto que não durou muito. Menos de duas décadas depois um vendaval varreu mosteiros, trapas e conventos esvaziando celas, coros e claustros.
Há muitos que culpam o “aggiornamento” proposto pelo papa Ângelo Roncalli (S. João XXIII), concretizado no Concílio Vaticano II, que aconteceu de outubro de 1962 a dezembro de 1965, pela catastrófica epidemia de abandono que experimentaram as ordens e congregações.
Mas, há quem garante que, muito pelo contrário, o esvaziamento foi até mesmo atenuado pelo Vaticano II, e que o Decreto Perfectae Caritatis, publicado quase no seu final, o concílio renovou a vida religiosa consagrada e permitiu que continuasse subexistindo nos eufóricos e últimos anos da Modernidade.
Ao sugerirem o retorno dos religiosos consagrados às fontes da vida cristã, os dois mil padres conciliares determinaram que “os religiosos, portanto, fiéis à profissão, deixando tudo por amor de Cristo, sigam-no como única coisa necessária, ouvindo a Sua palavra, solícitos das coisas que são d'Ele”(PC).
Para isto, o decreto propunha duas bases, aparentemente antagônicas, a partir das quais a vida religiosa deveria ser reformulada: a adaptação às novas condições dos tempos e o retorno sincero às suas antigas raízes, atentos ao “espírito e desejo de seus fundadores”.
Adaptar-se ao presente parecia fácil. Mas, da forma como foi feita na maioria dos institutos e congregações acabou se tornando a perda quase total da identidade que os distinguia.
E a identidade sempre foi para a vida religiosa católica a única justificativa para a proliferação de milhares e congregações, ordens, institutos, fraternidades e companhias. Quem decidia ir para um convento era atraído mais pelo carisma específico daquele grupo, geralmente dado pelo fundador ou fundadora do que pelo simples e fundamental seguimento do Cristo, pobre, casto e obediente até a morte, como deveria ser.
O primeiro e principal ato “reformulador” foi a dispensa do uso das vestimentas específicas. Os hábitos, às vezes ridículos, outras vezes inexplicáveis, funcionavam como verdadeiros escudos, que defendiam os consagrados e as consagradas dos perigos do mundo. Foram substituídas por uma roupa híbrida, na maioria dos casos. Algumas congregações abandonaram total e definitivamente as custosas indumentárias.
O preceito de que se devia “pesar seriamente que as melhores adaptações às necessidades do nosso tempo não sortirão efeito, se não forem animadas da renovação espiritual, que sempre, mesmo na promoção das obras exteriores, deve ter a parte principal” (PC), proposto pelo Concílio, foi entendido apenas como uma licença para a “modernização” externa de casas, costumes e pessoas.
Aos fiéis leigos, essa renovação significou apenas uma troca de roupa, e não um “retorno às raízes da vida cristã e ao espírito dos fundadores” (PC). Se antes os mais especializados sabiam distinguir um agostiniano de um franciscano e este de um dominicano, agora todos eram homens comuns e mulheres como todas as outras. 
Sem a defesa de uma roupa especial, vestidos como a maioria das pessoas, os religiosos consagrados, homens e mulheres, também se sentiram livres para viver o mais secularmente possível. Resultado: uma debandada geral e ilimitada.
E a situação foi só piorando. Na Europa centenas de conventos e mosteiros, verdadeiros castelos medievais ricamente decorados ao longo de séculos viraram hotéis e museus. Não havia mais as centenas de braços que poderiam sustentar e manter uma estrutura palaciana.
Uns poucos viraram depósitos de monges, monjas, frades e freiras idosos, com uma manutenção caríssima. Em algumas regiões, como no Terceiro Mundo, ainda podia-se ter uma melhor resposta em termos numéricos. Mas isto aconteceu à custa de concessões no processo de discernimento e formação.
Nem a ousadia da vida em “casas de inserção”, traduzida pela residência de pequenos grupos no meio das comunidades populares dos bairros periféricos funcionou plenamente. Esses novos conventos, agora pequenas casas comuns e mais discretas passaram a receber mulheres e homens atraídos à vida religiosa pela falta de alternativas de vida, ou acossados pela pobreza.
E, como suas motivações não era o desejo sincero da entrega ao Espírito, mas um ajeitamento sócio econômico, acabaram por desvirtuar e finalmente descaracterizar o que havia de sublime na consagração.
 UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL?
Porém, “um problema sempre traz em si a sua solução”, anunciavam os sofistas gregos antes de Sócrates e cinco séculos antes de Cristo. O brilho de um raio de luz sempre é ressaltado pela escuridão que o envolve.
Também disseram os mestres e mestras iluminados pelo Espírito da Suprema Unidade: “o momento mais escuro da noite é que anuncia o início do amanhecer.” As dores e os gemidos podem ser os sinais de um renascimento iminente.
E é isso que a Esperança Cristã leva a crer. Como “no princípio” (בראשית  bereshit – Gênesis)  do caos é gerado o cosmos, a escuridão possibilita e pede o “Fiat lux”, No meio da terra revolvida, do barro é que reside a mais brilhante joia, acessível apenas aos atentos.
Então há uma saída? Há um remédio para as dores e a agonia  da vida religiosa? Além do otimismo de estudiosos, há as pessoas que acreditam, como eu creio, que o sentimento místico é a única chave que abre as portas do cotidiano para nos deixar entrever a Suprema Realidade.
Resposta mais íntima ao desejo de transcendência do ser humano, a mística alimenta a fé e clareia a esperança. Raiz e flor de todos os sentimentos religiosos que adornam a vida humana, a mística é como a lente que aproxima de nós a Verdade que nenhum sentido externo pode enxergar.
Os místicos de todos os lugares, culturas e tradições confiam e esperam firmemente que os sinais dos tempos que trazem a noite trazem também a madrugada. Os tempos que apavoram são também kairós (καιρός - momento oportuno) para a alegria do renascer. Os sinais dos tempos tenebrosos indicam um possível amanhecer.
Mas como identificar esses sinais? Como levantar os olhos do chão lamacento em que pisamos para olhar o objetivo final dessa caminhada?
As sociedades de vida religiosa consagrada, como as religiões e igrejas que as amparam e que delas bebem, só têm como arma e defesa o que lhes é específico. Não é possível agregar uma blindagem além do espírito que as animam.
No caso cristão, a vida religiosa só tem como base e referência o Reino de Deus, anunciado no Evangelho de Cristo. Não podem, e muito menos devem, se apoiar em outra base que não seja “a pedra que os pedreiros rejeitaram e que se tornou a pedra angular” (Sl.,117-118).
E apoiados nessa pedra, que é o Cristo Jesus, o que podemos enxergar? Nada mais que sua gesta e seu evento pascal. Não há Jesus sem cruz. Mas não há cruz sem ressurreição. ´”Se o grão de trigo não morrer...” (Jo 12,24).
Enfrentar essa morte que leva à ressurreição exige que as organizações e sociedades de vida consagradas tenham a coragem de, num primeiro momento, voltar para si próprias. E, numa autocrítica sincera e sem fraqueza descobrirem as feridas que as estão levando à morte.
Depois, precisam de mais coragem ainda para decepar seus membros e órgãos gangrenados (Mat 5, 29-30).  Só depois poderão se valer dos óculos que seus fundadores e fundadoras usaram para enxergar o que de específico a vida e as palavras do Nazareno propõem para cada uma.
Ainda é preciso que tenham a criatividade audaciosa e a valentia profética para discernir o como, o onde, e o para que desse renascimento. Afinal, todos, homens e mulheres cristãos não se reconhecem a si mesmos a não ser diante, com e para o outro ou outra. Só o espelho do próximo revela o rosto de Cristo.
Respondendo a pergunta que abriu o texto, só podemos esperar e buscar uma forma de sobrevivência. Pois, se a árvore que tem  folhas e galhos, até parte do tronco decepados pode tornar a brotar se preservada a saúde das suas raízes (Isaías 11,1), do Cristo, raiz de todo projeto de santidade, pode ressurgir uma vida religiosa renovada cristã, atualizada e mais bela.
Deus nos permita essa ressurreição!


Ton Alves é jornalista, leigo cristão católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Fraternidade Holomística Transreligiosa – CASULO DE LUZ


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