sábado, 20 de maio de 2017

AMOR, LOUCURA OU LIBERTAÇÃO?



Ao Reino de Deus importa mesmo é que a vida religiosa consagrada seja “fermento na massa”, (Lc. 13,21), que deve ser levedada para ser tornar pão para a vida. É preciso cuidado para que, ao contrário, esse fenômeno místico vital não se torne um item a mais na argamassa que enrijece as estruturas de morte.

Pois, quando não são flexíveis, como os ossos de um bebê, que sustentam, mas não impedem o crescimento, as estruturas paralisam. Sufocam as sementes (Mat 13,22), engessam a evolução e atrasam a chegada da plenitude para qual Deus criou todas as coisas.Para isto, estão sendo exigidos dos consagrados e das consagradas a fidelidade às suas origens e uma corajosa avaliação crítica do que significa esse projeto no mundo de hoje. Esta conclusão já havia sido feita por mim no artigo “A vida religiosa tem futuro?” publicado nas redes sociais e no blog Casulo de Luz em 15 de maio passado.
Agora, nossa pretensão é focar naquilo que constitui e dá identidade à vida religiosa, ouso apresentar uma visão pessoal minha sobre os Conselhos Evangélicos, os votos de pobreza, castidade e obediência.Estamos plenamente inseridos num mundo onde o bem estar fácil, o consumismo inebriante e a provisoriedade de tudo virou mais que moda. Virou, aparentemente, o único jeito de ser, estar, permanecer e ser feliz na face da Terra. O notável avanço das tecnologias da comunicação possibilita hoje um aumento substancial nos contatos junta a uma avassaladora superficialidade nas relações humanas.E, num instante histórico como este, como ficam, ou, como deveriam ficar os valores de uma vida religiosa voltada inteiramente para Deus? O que significa hoje um compromisso sagrado de viver em pobreza, castidade e obediência?Estas são as pergunta que afligem a todos nós que nos consagramos à vida religiosa, desejosos de seguir mais de perto a Jesus de Nazaré, no amor incondicional a Deus e no serviço abnegado ao próximo (Perfectae Caritatis, 2).Afinal, se atentarmos aos sinais dos tempos, viver essa consagração é ir contra a corrente, bater de frente com tudo que a Pós Modernidade propõe.Então, há um modo atualizado, modernamente eficiente e tradicionalmente correto, de viver os Conselhos Evangélicos (1Cor; 7; Fil. 2; 2Cor. 8)? Como ser eficaz nessa vivência para que a vida consagrada não perca totalmente sua relevância e com isso não tenha mais nenhuma serventia para “iluminar a vida e oferecer a salvação para a Humanidade” (Gaudium et Spes 3)?Baseados nos ensinamento do apóstolo Paulo, de que “os que usam deste mundo, usem-no como se dele não usassem, pois a aparência deste mundo passa”, na sua primeira carta aos Coríntios (1Cor 7,31) muitos homens e muitas mulheres viram na vida religiosa uma maneira de abandonar e fugir do mundo.
Dessa forma, impediram que o bem que uma atitude profética de tão envergadura não passasse de um comodismo egocêntrico e doentio. A pobreza passa ser um jeito de se esquivar da luta pela sobrevivência e o exercício da solidariedade. A castidade, o escamoteio para uma sexualidade muitas das vezes dolorosamente constrangedora. E a obediência uma forma de deixar para outra pessoa o discernimento e a responsabilidade das decisões.Assim, os conselhos evangélicos, que foram por muitos séculos vistos apenas como um triste e medonho sacrifício, e vão continuar sendo vistos como uma esquisitice de pessoas alopradas. “A infelicidade neste mundo pavimenta a estrada para o Paraíso”, escreveu um asceta do Século XII. Contudo, essa afirmativa se desfaz diante da fulgurante luz da Misericórdia Divina revelada por Jesus de Nazaré.Ser pobre como o Cristo não é fechar os olhos para as injustiças sócias econômicas desse mundo globalizado. É desapegar dos bens e usar todas as riquezas da criação de maneira livre e ponderada. E não se deixar ser usado, dominado e guiado por elas. A pobreza evangélica liberta não porque faz sofrer para purgar os pecados nossos e do mundo, mas porque a liberdade do “não ter” permite o “ser”. E subtrai os corações da escravidão da cobiça e do desejo insaciável, da avareza da posse.Ser casto não significa ser castrado ou castrada. A castidade cristã é a purificação do egoísmo que coisifica o outro ou a outra. É levar a sexualidade ao nível do sagrado, fonte de encontro, alegria e serviço. Se não compreendida, assumida e aceita, a sexualidade se transforma em ferrão do demônio que fere e condena. Ser casto como o Cristo é ver nas outras pessoas o rosto de Deus, e, portanto, jamais, apenas um instrumento de luxúria e prazer.Ser obediente é diferente de ser servil, alienado (a), a uma autoridade incompreendida, mas aceita e suportada como uma algema. A base da obediência evangélica vem da aceitação alegre, voluntária e da sintonia amorosa às necessidades que não são próprias, mas são legítimas. Obedecer é dialogar, oferecer um sim à demanda de outro em vistas de um bem maior. Obediência não deve ser cega, mas consciente, clara, iluminada pelo amor fraterno.Vistos desta forma, e só desta poderemos vê-los pela lente do Evangelho e da Tradição, os Conselhos Evangélicos são preceitos acessíveis a todos os homens e mulheres, em todos os estados de vida. Seja no saudável celibato voluntário, na solidão de um cenóbio ou inserido no mundo, ou até numa prolífica vida matrimonial.Pois a observância dos Conselhos Evangélicos não é um privilégio concedido apenas a determinadas pessoas. É um preceito para todos os seres humanos sagrados pelo batismo, que deve e pode ser vivido em múltiplas intensidades.Quem quiser observar e vive-los mais profética e radicalmente, deve ter como base e estímulo uma profunda vida oração e um austero recolhimento. O que não significa uma fuga mundi ou um a submissão a uma patológica e masoquista negação do Absoluto de Deus que reside em todos os corações.


Ton Alves -jornalista, católico universalista é o fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística - – CASULO DE LUZ


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