quarta-feira, 24 de maio de 2017

INÚTIL REPINTAR PAREDES E SE ESQUECER DOS ALICERCES


Nenhuma reforma pode colocar em risco os fundamentos da estrutura que se quer melhorar. O mofo das paredes, as goteiras do telhado, as pragas no jardim quase nunca tem a ver com os alicerces de uma casa. Não se arrancam pedras da base para mudar as cores da fachada. Não se cortam raízes para fortalecer a árvore quando chego o tempo do estio.
Contudo, na preservação dos alicerces é preciso cuidar para distinguir o que é fundamental e o que foi acrescentado segundo os interesses e as conveniências das pessoas e dos tempos.
No caso das inúmeras mudanças pelas quais vêm passando as várias respostas dadas ao sentimento religioso da Humanidade, necessário, importante e urgente se verificar esse critério.
Há vários anos, conversando com Carlos Mesters, o biblista e profeta carmelita, num evento em João Pessoa(PB), ouvi dele uma lição inesquecível. Eu lhe dizia que devemos ter cuidado para “não jogar fora a criança com a água suja da bacia”. Ele me garantiu que era muito mais perigoso “jogar fora a criança e ficar com a água suja na bacia.” Pois todos, em alguns momentos, fazemos isso. Na tentativa imediatista de modernização e de simplificação das estruturas, destruímos os alicerces, e tentamos nos abrigar sob paredes e tetos fragilizados.
E o pior quando ficamos com a água suja dos condicionamentos históricos e culturais e jogamos fora a criança que pretendíamos limpar. E parece que isto é o que temos visto e sentido nestes tempos pós conciliares.  A janelas que seriam abertas para entrada de novos ares, como desejada no século passado, viraram portas escancaradas para os modismos, as insignificantes “renovações” que eram apenas para facilitar o conforto e laxismo de muitos.   
Então, ao lado de um moralismo medieval, sem espaço para a misericórdia e o perdão, convivem modernidades que descaracterizam as origens do cristianismo. Uma religião nascida dos pobres e em função da libertação destes, virou uma religião de castas, de hierárquicos governos e burocráticas decisões.
A liturgia, ponto máximo da vivência religiosa para todas as tradições, foi modernizada ao ponto que quase perder a característica catequética e sacramental. A título de facilitação, as rubricas do missal engessam a criatividade e proíbem a espontaneidade. Participar da Eucaristia é um eufemismo deslavado o ainda arcaico costume de “assistir missa”.
O oportunismo mercadológico que incentiva a criação de novos hinos impede que a música sacra cumpra seu mais estrito dever: enlevar a alma. São cantos novos, poucos com a beleza que seu nobre destino requer. Não há verdadeiro diálogo entre altar e assembleia. Nem existe o necessário silêncio para a contemplação da Verdade celebrada.
Ainda se percebe um triunfalismo teatral nos altares. Quando não um arremedo de espetáculo onde celebridades vendem uma mensagem que não praticam nem observam. Se no mundo é o tempo do provisório e imagético, nas igrejas proliferam os signos de uma monárquica cerimônia. Cultos e celebrações que nada têm a ver com a ceia pascal comida pelo Cristo e seus amigos, sentados provavelmente no chão sobre almofadas simples e servida em pratos e copos rústicos.
Mas, o Espírito Santo de Deus, anunciado por Jesus de Nazaré perfura os disfarces, ilumina os recantos tenebrosos e revela a vontade do Pai acontecendo à revelia da Cúria. Entre os pobres Jesus mostra caminhos novos. E apenas um homem “do fim do mundo”, originário de um país que teima em se livrar as mazelas de anos de uma das mais cruéis ditaduras do Ocidente podia entender esse recado.
Ao abrir mão da pompa do cargo, simbolicamente recusando o uso das  ridículas vestes cravejadas de fios de outro e pedrarias, que lembram mais a roupa dos sumos sacerdotes que condenaram Jesus, Francisco deu um recado que nem todos ainda entenderam.
A Igreja de Bergoglio está reforçando seus alicerces e não apenas repintando paredes ou redecorando altares. Será que vamos demorar a entender? Quando é que nós, também da periferia do Ocidente capitalista vamos entender que o reforço do alicerce é a observância sem firulas do Evangelho? A criança da bacia é o Crucificado, suas obras, seus gestos e suas palavras. E mais nada!
O resto, as picuinhas de uma burocracia e dos usos anacrônicos que só e atrasam e atrapalham a hierofania com a qual sonhamos. Será que compreenderemos isto em tempo, antes que seja tarde, e que o Espírito de Vida resolva nos “vomitar da sua boca” como avisou à igreja de Laodicéia? (Ap 3,15)



Ton Alves é jornalista, leigo católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística – CASULO DE LUZ


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