quarta-feira, 24 de maio de 2017

MÍSTICA - Ou, a íntima experiência do Amor de Deus


No seu magnífico poema “Noche oscura del alma”, o místico Doutor da Igreja Juan de la Cruz fala da alma que, premida pelo silêncio do seu amado, sai, em meio da noite tenebrosa, tendo como luz para guiar seus passos apenas o fogo de amor que queimava em seu coração. Considerado uma das grandes criações literárias da humanidade, o poema recebeu posteriormente um extenso comentário do próprio autor.
Ao discorrer sobre cada estrofe do seu canto, Juan revela que “a noite escura da alma” não é apenas um fenômeno esporádico que se abate sobre as vidas de alguns religiosos. É, na verdade, o ardente anseio de toda alma humana pelo seu criador.

E com essa consciência amplificada, o místico vive em meio ao mundo sem ser do mundo. Não se amolda ao mundo, mas, antes transforma o mundo com sua mente agora transformada.(Rom 12,2)

Esse desconforto espiritual, onde nossa sede de amor só encontra o silêncio de Deus é uma experiência contínua de toda a humanidade, desde que “fomos expulsos do Paraíso”, Naquele momento em que o ser humano rompeu sua unidade com o Todo e com tudo, e ficou só e fragilizado. Como é impossível encontrar o Amado nas coisas sensíveis que rodeiam nossa alma, nos sentimos num deserto de desolação, secura e dor.

Por isso, a experiência mística, o sentir Deus não só perto, mas “dentro do coração”, se torna a mais dramática e universal procura de todas as almas humanas. Este movimento em busca do íntimo contado com o Absoluto, acontecimento natural dentro de cada um de nós, nos revela, possibilita e confirma nossa percepção, muitas vezes oculta, de fazer parte de algo maior do que apenas a realidade física.

Há quem considere essa busca e os possíveis encontros algo totalmente esotérico, reservado a privilegiados. Há quem imagine a mística apenas como a procura de respostas metafísicas. Contudo, essa prática pode nos levar a usufruir de formas distintas, inclusive amorosas e poéticas. Sendo a poesia a mais concreta forma de percepção e expressão do sentimento místico.

Pois a mística, a busca por uma resposta sobre os nossos propósitos de vida pessoais e coletivos, do como podemos viver melhor e mais integradamente com tudo o que nos cerca, resulta na ampliação da nossa consciência. Não apenas pelo acesso a planos transcendentais da existência, mas, principalmente, pelo clareamento da visão que nos possibilita enxergar com Verdade, Sabedoria e Amor a realidade do imanente que nos cerca.

Uma experiência mística para ser existencial e profunda não precisa ser, necessariamente, avassaladora e apoteótica. Aliás, muitos dos demorados êxtases catatônicos e ruidosos demonstram exatamente o contrário.

O arrebatamento de uma contemplação profunda é, por isso mesmo, íntimo, silencioso e calmo. A Glória Divina do Absoluto não está no “vento fortíssimo que separa os montes e esmigalha as rochas... nem no terremoto ou no fogo”, mas sim “no murmúrio de uma brisa suave.” (1 Reis 19,11-12).

Isto foi atestado pelo próprio Juan de La Cruz, ao comentar seus tormentos no cárcere da sua ordem religiosa em Toledo. “As visões e apreensões dos sentidos não têm proporção alguma com Deus: não podem servir de meio para a união com ele”, garantiu o místico doutor.

Sua coirmã, fundadora das Carmelitas Descalças, Teresa de Jesus, ensinava a possibilidade e a necessidade dessa vivência “até entre as panelas e os potes da cozinha”. Para a Santa de Ávila, a experiência de Deus era muito mais uma relação de amizade, de namoro, que de uma submissão servil. Para ela, essa amizade iguala os amigos para fazer deles um só. E isto no diálogo, no bate papo amoroso entre pessoas que se gostam no silêncio do coração (Livro da Vida, 33 e 34)

E experimentar o Amado, que antes de ser buscado já nos buscou primeiro, muda para nós todo o modo de percepção do mundo e até mesmo da nossa existência, nossa maneira de ver e enfrentar a vida e de acolher os irmãos nos quais passamos a enxergar o rosto da Divindade Invisível.

A experiência mística não encera a sede de Deus na alma do ser humano de uma vez por todas. Ao contrário, alarga de tal forma o vazio interior que exige sempre o Infinito para lhe saciar. Agostinho de Hipona, outro doutor, e talvez o mais conhecido e citado dos os Pais da Igreja, conclui uma bela oração confessando a Deus esse fenômeno: “Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora ardo no desejo de tua paz.” (Conf. 10,38)

O místico que experimenta Deus no fundo do seu coração se lança no mundo de uma forma diferenciada, nunca mais nos mesmos moldes de antes. É agora portador de uma visão amplificada, de uma sensibilidade potencializada para perceber com sentidos novos a si mesmo, os outros e o Universo inteiro. Até sua concepção de Deus transborda dos conceitos para uma atingir uma verdade quase inefável.

Reconhece a si mesmo um ser transitório porém único, integrado a todo o Universo e pleno do amor poderoso que o criou. Preenchida pela Divindade, a pessoa se sente imersa, mergulhada no Absoluto.

Como Paulo explicou ao povo no Areópago de Atenas, Deus nos criou para que o busquemos, “às apalpadelas, como no escuro, e possamos encontrá-Lo, embora Ele não esteja longe de cada um de nós. ‘Pois n’Ele vivemos, nos movemos e existimos’” (Atos 17, 27,28).

Então, a mística não faz da pessoa um ser etéreo e sublime, indiferente ao destino dos seres humanos e do mundo. Mas alguém que se sente irremediavelmente irmanado a todos os seres, e parte integrante de todo o Universo. E a evolução rumo à plenitude de toda a Criação passa a ser, agora, seu maior objetivo.


Ton Alves é jornalista, leigo católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística - – CASULO DE LUZ


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