segunda-feira, 22 de maio de 2017

PRECISAMOS VOLTAR À TRADIÇÃO DE JESUS



Gosto de pensar que o balanço das ondas é um recado do mar aos rios, que percorreram imensas distâncias para entregarem ali suas águas, avisando que o oceano é o ponto de chegada, mas não é o fim. O movimento, a agitação, as mudanças constantes, conforme os lugares e os tempos são como o palpitar de um coração: sinais de vida.
Assim também nos vejo, os seres humanos e as sociedades, necessitados de sacolejos e sacudidelas para não achar que não precisamos mais caminhar porque atingimos o que parecia ser o objetivo final da nossa longa busca. “A estagnação é o começo da morte”, dizia um poeta. A dinâmica é o pulsar da vida.
Já no quarto século da nossa era, havia pensadores temendo o que poderia acontecer com “O Caminho” iniciado por Jesus com a consolidação do que se convencionou chamar “a Cristandade”. Como era do interesse de uma igreja, antes perseguida e obscura, que se tornara religião oficial do Império, com uma complicada e imensa hierarquia, o Cristo da fé e do dogma substituiu paulatinamente o Jesus histórico.
Nas imensas basílicas até nas menores igrejas, pinturas e estátuas de um rei poderoso, coroado de glória tomaram o lugar da figura do pastor terno e acolhedor. Ficou quase impossível lembrar que o Pantocrator que abençoava imperadores e cônsules era o mesmo filho de Maria, um humilde artesão de uma pequena aldeia que enfrentou o cínico Sinédrio e o cruel rei da Judéia.
O rebelde torturado e brutalmente morto na cruz pelas autoridade Romanas, a pedido dos Sumos Sacerdotes, tornou-se protetor do império e objeto de um riquíssimo culto cheio de pompa e circunstâncias. Nascia a Cristandade. Jesus de Nazaré ficou relegado a um segundo plano para ceder lugar ao Cristo, Filho Único de Deus. Rei dos Reis e não mais o pastor da ovelha ferida.
É mais fácil lidar com um Cristo diáfano, transparente aos nossos conceitos, do que aceitar um homem concreto, de carne, osso e poeira que afirmou que “quem quiser ser o maior que seja o menor e o que serve”. O Cristo pode ser aproximado do mito e dissolvido numa ideia maleável, que não incomoda e até nos conforta. Mas o Nazareno é concreto demais e viveu de forma tão radical e verdadeira e clara que é inflexível aos nossos interesses e nos desafia.
E assim, entramos na Idade Média, onde os simples e os pobres se sentindo indignos de tanto brilho recorriam às imagens, às passagens históricas da vida de Jesus, de sua família, principalmente sua mãe, e seus amigos. Criaram-se devoções populares vivenciadas nas aldeias, nas periferias dos burgos, nas casas dos simples.
Desenvolveu-se, ao lado da monumental, incompreensível e difícil Teologia Escolástica, privativa ao clero, monges, nobres e letrados, uma devoção popular que se valia dos santos para interceder junto ao agora distante Cristo, Rei do Universo. Enquanto não tiravam dos párocos, vigários e bispos, esse catolicismo dos simples era até estimulado pelos padres pobres da vilas e aldeias.
Ao longo do período medieval, tido por muitos como a Idade das Trevas, floresceu uma religiosidade popular onde o Crucificado sofrido e morto comovia e convertia muito mais que o Ressuscitado glorioso e coroado. Era o retorno à Tradição de Jesus, onde os ensinamentos e as orações eram ensinados e repetidos pelas casas. As festas do Natal e da Semana Santa, centrada na Sexta-Feira da Paixão, eram os pontos altos dessa religiosidade.
A reforma protestante insurge contra isso, e tenta restaurar a Tradição do Jesus histórico que havia cedido lugar ao Cristo da fé, ao qual havia sido adicionados um punhado de adereços teológicos e ideológicos. A principal arma desse projeto foi a tradução da Bíblia só publicada em Latim para as idiomas dos vários países. Purificada de muitos dos seus adornos imperiais, a Cristandade começou a mudar, ou seja, deixou de ser apenas privilégio de a reis, senhores e governantes para servir também à ideologia burguesa urbana.
Com a chegada do iluminismo materialista, a própria Cristandade, a religiões dos papas, reis, príncipes e governantes europeus sofreu um duro golpe. Contudo, ao invés de buscar nas próprias raízes, esquecidas nas areias da Palestina e nas montanhas da Ásia Menor, a Igreja quis através dos Concílios de Trento, Vaticano I, decretos, bulas e encíclicas reformar a sua face.
Foi como repintar a fachada de um prédio cujas estruturas estão abaladas até os fundamentos. Ou uma custosa intervenção cirúrgica para remover os sinais da idade e da doença de um corpo combalido pela velhice. Inútil! Nas colônias, o catolicismo popular e o protestantismo reformador que não encontrou espaço na Europa ganhou nova força. Mas acabaram  por repetir o mesmo erro anterior e recriaram uma cristandade da periferia.
O século XXI chega com a Cristandade em frangalhos. Composta de credos dos mais diferentes, como acontece com todas as grandes religiões que fogem do controle de uma autoridade central (“O Espírito sopra onde e quando quer”). As igrejas e seitas cristãs propõem tantos caminhos distintos para a santidade que muitos parecem contrários uns dos outros.
Só se salva pela unidade, ou pelo menos por um relacionamento sadio, nascido de um diálogo fraterno numa linguagem baseada na intuição original que as iguala e une, e não nos acidentes históricos e culturais que as distingue.  E a intuição original do cristianismo não é o Cristo teológico, mas sim na pessoa concreta de Jesus de Nazaré.
É Jesus com seus gestos, palavras, sua paixão e morte é quem revela o Cristo. Não há Cristo sem Jesus. E, a Jesus, por ser concreto e humano, não basta a verdade sabida, precisa-se da verdade vivida. Ciência é pouco, é preciso mais a experiência.
Pois Jesus sem o Cristo continua a ensinar com seu testemunho o amor de Deus que tudo criou que, por amor, se encarnou num judeu pobre e oprimido na periferia do maior império do Ocidente.
O Cristo é fruto de uma elaboração filosófica, a partir dos atos e ações de Deus na História humana, cujo maior sinal figura no rosto de Jesus. Mas Jesus é o resultado de uma longa evolução da Humanidade que, “no apogeu dos tempos” se concretizou em um homem concreto, histórica e geograficamente datada.
Então, para voltar a ser real e fortemente cristão, o cristianismo deve voltar a Jesus. Se recuperar sua missão de ser luz que ilumina e sal que preserva a Humanidade, o Cristianismo vai voltar a ser a continuidade do projeto de Jesus de Nazaré.
Não apenas contemplar Jesus, estudá-Lo, adorá-Lo e louvá-Lo. Mas, principalmente lhe ouvir, amar, seguir e imitar.  Só Jesus salva o cristianismo das próprias confusões que aqueles que não tinham ouvido para ouvir, nem olhos para ver, mas ambição e sede de poder suficientes para sobrepor à sua imagem próxima e humilde a arrogância de um senhor e rei distante e amedrontador.

Ton Alves é jornalista, leigo católico universalista, fundador e coordenador do Projeto de Vivência Cristã Holomística - – CASULO DE LUZ

Nenhum comentário:

Postar um comentário